OPINIÃO: ARQUITECTURA DE CENA

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Flávio Tirone e Isabel Worm
Arquitectos – ARSUNA

O texto que segue quer ignorar deliberadamente a existência da pandemia que assola o globo terrestre. Não se trata de colocar a cabeça na areia nem de esquecer as consequências profundas que afetam o mundo do entretenimento. Apenas se procura falar de um prazer humano, o espetáculo, que subsistirá sempre. A história da espécie humana assim o comprova.
Estamos em crer que será útil esclarecer algumas evidências.
Apelidamos esta especialidade de “arquitetura de cena” para a diferenciar da cenografia e da arquitetura no sentido mais amplo. Em inglês usa-se o termo theater design. Um dos expoentes máximos foi George C. Izenour, professor em Yale, que sistematizou a História e os conceitos de forma catedrática.
A história da arquitetura de cena está intimamente ligada à da arquitetura e da evolução da sociedade.
Tem origem nos Rituais Ancestrais, passando pela Grécia e pelo mundo Romano, ostracizada na Idade média pelo “temor divino”, reerguida na Renascença italiana e pelo teatro Isabelino de Shakespeare, enaltecida por Palladio, levada ao estrelato no Barroco e no Barroco tardio até ao século XIX com os teatros líricos como o de Versailles e o La Scala e as suas caixas de palco, evoluída num percurso quase exponencial através de Bayreuth e do Palais Garnier, chegando aos dias de hoje com exemplos de finais do século XX como o Metropolitan Opera House e a Opéra Bastille, encontrando o expoente máximo em locais tão inesperados como Las Vegas.
A atividade do arquiteto de cena é realizada em paralelo com a do arquiteto. É como que uma especialidade que acompanha o projeto geral. O instrumento de trabalho é o projeto cénico que se subdivide numa série de tarefas com o único objetivo de tornar exequíveis as ideias arquitetónicas e cénicas.
Outra evidência é a de que esta especialidade requer que haja eventos com presença física, em “carne e osso”, de um público num local em conjunto com o desenrolar do espetáculo.
Trata-se de eventos ao vivo. (Já estão a perceber porque é que é preferível ignorar categoricamente, por agora, a existência deste nefasto vírus?).
A indústria do entretenimento nasce para o século XXI como o auge da sociedade de lazer. Necessitamos tanto das férias bem merecidas numa praia tropical como de uma noite bem passada a assistir a um espetáculo grandioso. E é consequência dessa procura a vertiginosa evolução técnica na vertente cénica.
Mais uma evidência é a de que só haverá uma boa arquitetura de cena se estiverem em equilíbrio
os parâmetros dos intervenientes fundamentais – o público, os artistas, os técnicos e os administrativos.
Há um ciclo produtivo, tal como o há numa fábrica, num escritório ou até mesmo numa habitação.
O programa de um edifício que contenha um espaço cénico tem de permitir que o seu ciclo funcione. E o aspeto mais entusiasmante é que uma sala de espetáculos pode ter diversas configurações e pode estar inserida em edifícios de diversos tipos.
A linguagem da arquitetura não sofre, apenas integra e, eventualmente, enaltece.

Foto: Créditos de Ana Teodoro

 

 

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