A Hora de Verão

Nelson Ferreira de Almeida

Hoje que vos escrevo entrou a Hora de Verão. Pode ser que ajude. Todas as ajudas são preciosas e alguns há que acreditam que o Verão vai resolver. Mas depois há os outros que dizem que no Hemisfério Sul vem aí o Inverno. Mas depois troca.
( nada é importante ante o sofrimento e o absurdo dos números na terra de Gaudi e de Moneo, na Itália de Leonardo, Palladio, Bernini, Rossi e do meu preferido Renzo Piano )
Quando a ANTEPROJECTOS pela sua Directora Geral Angela Leitão me desafiou para escrever um texto de opinião sobre o Futuro depois do momento que todos atravessamos, fiquei entre a perplexidade da reflexão e do cartomante. Foram postas 3 questões :
– Como o Covid19 afecta a Arquitectura ?
– Que Futuro para o Sector ?
– Como vamos Sobreviver a mais uma Crise ?
Sintetizo 5 palavras; Arquitectura, Futuro, Sector, Crise, Sobreviver e comecemos por esta última.
A Sobrevivência ao Covid19 parece ser uma longa travessia para o Desconhecido. As discussões trouxeram-me à memória duas marcas de cigarros de quando era criança; os PROVISÓRIOS e os DEFINITIVOS. Qual deles é o Covid19?
A Dimensão, a Extensão, a Extinção ou o Retorno? Só temos estudos e suposições. Apesar disso sabemos que vamos Sobreviver; de algum modo. A situação, a nossa situação, já era débil, minada por uma descrença generalizada nos sistemas Financeiro e da Justiça e na forma como eles se entrelaçaram com as instituições do poder durante as últimas décadas. Ainda assim, vamos Sobreviver. A Crise, que é anunciada como sendo bíblica, irá afetar a Economia de cada País, cada Empresa, cada Família e cada Indivíduo. Ao nível social, dificilmente algum ser humano deixará de ser tocado pela perda de alguém mais ou menos próximo e eventualmente até de património. As depressões irão aumentar e alguns irão desistir. Na Sociedade e na Política, no auge da discussão, quando tudo começar a acalmar serão atribuídas responsabilidades e apontados os dedos; virá uma primavera de demagogia, de populismos e nacionalismos, talvez até de algum racismo. Na Nova Hora de Verão o verniz já começou a estalar. Da Globalização dos últimos anos poderemos caminhar para o Isolacionismo no prédio, no bairro, na cidade, nos países, nos continentes, nas castas económicas, políticas e religiosas. A Arquitectura e o Sector também serão arrastados por aqui.
E o Futuro do Sector? esse depende da Economia e essa nem sequer é de Guerra; é de Quarentena mas não tem 40 dias. Provisórios ou Definitivos? Seja como for iremos adaptar-nos. Citando um interessantíssimo texto do Presidente da CM do Porto e do qual roubo pequenos excertos soltos; “Se houver liquidez disponível – o que será o maior desafio – se houver confiança da população e do sector privado, se houver determinação dos nossos governantes e estes resistirem aos impulsos ideológicos…surgirão novas oportunidades, novas modas, novos conceitos…”, mas também “…Responsabilidade do Estado nos bens essenciais e dos Serviços Públicos…” e ainda “…a antevisão da falência do sistema bancário.”
Sim, é um terramoto, mas sendo este ou outro, acredito que estamos perante um curto período de 3 a 4 anos de reinvenção, período que no entanto será demasiado longo para muitos, deixando tantas pequenas, médias e grandes empresas de projecto sem saída depois de ainda estarem a lamber as feridas de 2008/9.
“É na Crise que nascem os inventos, as descobertas e as grandes estratégias” Albert Einstein.
Na segunda década deste século muitos arquitectos tiveram que se reinventar e assistimos a coisas verdadeiramente notáveis. Em 2004 Tom Peters editou REImagine Excelência nos Negócios numa Era de Desordem, o que na verdade passou a ser o nosso Normal. A terceira década vai ser mais exigente.
O escritório/Atelier desmaterializou-se. Afinal estamos todos a trabalhar em casa, nas cidades, nas aldeias ou nos montes e nem sempre nos mesmos países. Conseguimos fazer reuniões com colegas, com as Autarquias, trocar documentos, fazer assinaturas digitais, registar processos….nada fica por fazer. Fiz isso várias vezes nesta semana que passou. Podemos ir ao terreno virtualmente com quem lá está, com uma aplicação, com a ajuda de um drone e estão a inventar novidades. Nada vai ser igual. O Mundo não para e o nosso País terá como principal agente de escolha como destino do Investimento o factor Medo. Ultrapassado esse obstáculo acontecerá a retoma. Voltará o Turismo de Negócios, os Short-Breaks e o Sol e Praia. Reabrirão os Hoteis, os Resorts e os Restaurantes. Eventualmente nem todos e provavelmente alguns dos projectos anunciados ficarão pelo papel até que tudo esteja esquecido e o Mundo role a 200 uma vez mais. No entretanto o Alojamento Local fez um magnífico trabalho de Renovação Urbana e talvez tenha mesmo de se reconverter em habitação permanente e aí vai precisar de ajuda do Sector de Projecto. É provável que o Imobiliário tenha alguns anos de travessia do deserto especialmente nos segmentos mais altos que estavam sobreaquecidos quando da chegada do vírus. Já a faixa do chamado pão com manteiga onde a oferta era e é escassa seguirá o seu rumo. Sendo previsível e desejável que as Autarquias continuem a desempenhar um papel crucial na crise do Covid19 isso irá resultar num esforço imprevisto e extraordinário das suas finanças. Abrirá provavelmente oportunidades no curto e médio prazo para o desenvolvimento de programas de parcerias entre o público e o privado de forma sólida, saudável e transparente para que realmente o mundo não pare, nem nas infra-estruturas, nem nos equipamentos, nem no desenvolvimento social, nem na renovação urbana. O nosso Sector tem um posicionamento privilegiado ao estar simultaneamente no lado Público e no lado Privado com uma compreensão e uma visão abrangente permitindo-lhe que com a sua criatividade e acção provoque a conjugação das vontades e a geração das oportunidades.
E o Futuro da Arquitectura ? do Urbanismo também, claro. Creio que estávamos no caminho certo, discutindo e trabalhando sobre os temas certos. Repovoamento urbano, densificação, renovação urbana, requalificação e recuperação, economia das cidades, interioridade, equilíbrio territorial do turismo, planeamento de comunidades, valor ao paisagismo, valor à mobilidade e qualidade de vida….a lista é longa….
Mais do que a Arquitectura acredito que nos próximos anos iremos conversar profundamente sobre os modelos da Sociedade e do seu Espaço. Citando mais uma vez o Presidente da CM do Porto na sequência do Covid19 diz ele “Haverá alterações antropológicas que hoje dificilmente poderemos adivinhar”. Acredito que assim será e acredito que muita nova legislação será produzida. As transformações já estão em curso. Uma das áreas de negócio que mais expandiu na década passada foram os cruzeiros que se vieram a revelar verdadeiras ratoeiras e que dificilmente irão recuperar. No primeiro trimestre de 2020 o UUrbaan Laand Institutee publicou a sondagem anual efectuada entre as dezenas de milhar dos seus membros em todo o mundo sobre as tendências do investimento para os próximos anos em cada zona do Globo. Na Europa, no Top 20 aparece em 1º lugar a Logística e o Senior Residence em 2º.
O Covid19 veio acelerar o primeiro e colocar duvidas no segundo. Como é que vamos pensar daqui a um ano ?
O Futuro para o Sector trás dificuldades e fará as suas vitimas, ninguém pode ter duvidas disso. Já ouvimos antes que por vezes é preciso dar 2 passos atrás para mais tarde dar 3 para a frente. Esta semana o Primeiro Ministro de Portugal disse – e na minha opinião muito bem – que se não for feito o que tem de ser feito a União Europeia acabará.
Que se adopte a mesma clareza de discurso e de acção para o nosso País. Que se faça o que tem de ser feito para restituir aos Portugueses a confiança no Sistema para ser possível entender que vale a pena suportar e fazer os sacrifícios que virão por aí.
Os Portugueses, quase 900 anos depois, sempre foram igualmente felizes com lagosta ou com carapau e hoje entrou a hora de verão.

Gabinete:

FERREIRA DE ALMEIDA ARQUITECTOS LDA

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