OPINIÃO: INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO “4.0” PRECISA MUITO DE PROFISSIONAIS “2.0”

“SKILLS BLUEPRINT FOR THE CONSTRUCTION INDUSTRY”

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JOAQUIM ALMEIDA

ENGENHEIRO CIVIL

Tudo agora é digital, vivemos agarrados a um smartphone de onde efetuamos movimentos nas nossas contas bancárias, fazemos compras para nos levarem a casa, desde refeições do restaurante a 200m até um qualquer equipamento (inclusive carros) vindo do outro lado do mundo.

É simples, está à mão e com ele obtemos tudo.

Bem, quase tudo, iria dizer que a nossa habitação não, mas até nisso já há algumas empresas a vender casas pré-fabricadas por internet. Quase me esquecia que até no espaço virtual do Metaverso, temos construções de cidades totalmente digitais, a custarem dinheiro e sujeitos à especulação imobiliária, onde na futura vida virtual das crianças atuais, elas quererão ter uma habitação virtual.

Mas afinal onde iremos viver? Em que edifícios? Em que cidades? Virtuais? Digitais? Parece que agora a própria Indústria da Construção Civil (ICC) anda obcecada com o BIM, Cloud, IA (Inteligência Artificial) e é neste novo mundo que todos querem ir trabalhar. Sua-se pouco e tem-se energia para depois ir ao ginásio exercitar o corpo de muitas horas sentado à frente dum computador.

Em 2021 iniciei a minha participação como elemento do National Advisory Groups (NAGs) de um projecto cofinanciado pelo Programa Erasmus+, com a participação do CENFIC em conjunto com outros 23 parceiros europeus na área da formação profissional para a ICC. O principal objetivo deste projeto é desenvolver uma aliança de longo prazo entre as partes interessadas (empregadores, trabalhadores, centros de formação, autoridades públicas) para uma melhor antecipação das competências necessárias na indústria da construção e para garantir uma melhor adaptação de correspondência aos referenciais da formação, tendo sido definido o foco em três áreas principais, a Digitalização, a Eficiência Energética e a Economia Circular.

O projeto ainda está a decorrer e das reuniões e documentos em que tenho participado, verifico que existe um problema generalizado na Europa, na atratividade das gerações mais novas para as profissões necessárias para a ICC, com Portugal a registar um fraco desempenho na formação de base destes profissionais.

Não consigo num curto artigo expor todas as reflexões que tenho feito sobre este assunto, mas a identificação das competências existentes no mercado da construção, além das competências emergentes necessárias, que terão de ser reforçadas com a capacidade de resposta dos sistemas de ensino e formação profissional, de modo que as necessidades identificadas possam ser traduzidas em perfis profissionais (já definidos), deveriam ser uma prioridade para a ICC e para o país.

Estamos a projetar num sistema 4.0 e estamos a construir com profissionais 2.0 ou inferior. Quase não há profissionais acreditados/certificados e a maioria dos trabalhadores da ICC não têm formação específica da função que exercem. Os portugueses não se sentem atraídos para serem pedreiros, carpinteiros, etc, nem a terem formação nesta área, e os emigrantes africanos, brasileiros, indianos/nepaleses, ucranianos, etc, não trazem qualificação nesta área, mas são aceites porque não há outros que cubram as necessidades.

Um país sem infraestruturas não serve à sociedade, a evolução na construção tem de muito rapidamente atingir a base da ICC que são os seus trabalhadores manuais (hands on) e de nada serve termos projetos virtuais muito bonitos se depois não os podermos construir com o mesmo nível na obra. Para quando uma mudança conjetural nesta área?

Veja https://constructionblueprint.eu/pt/home/

 

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