De que forma a atual situação pandémica poderá alterar o pensamento arquitetónico?

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Miguel Ibraim da Rocha

Arquiteto

Será que os espaços em que vivemos e trabalhamos vão ser alterados?

“O objetivo principal do edifício é funcionar como um instrumento médico”

Esta foi uma das frases usadas por Alvar Aalto para caraterizar o Sanatório de Paimio, instalação para o tratamento da tuberculose no Sudoeste da Finlândia. Sendo esta doença uma das maiores preocupações da Saúde Pública do início do século XX, todo este edifício surge totalmente concebido para promover e atuar, ele próprio, como parte da solução. Podemos afirmar que a própria arquitetura, aqui, participava como parte do processo de cura da doença.

A evolução do pensamento arquitetónico pode, de certa forma, ser entendido, como uma constante busca do arquiteto em responder aos desafios conceptuais e construtivos, e de entre eles, encontrar as condições favoráveis à promoção da saúde pública. Le Corbusier, Mies van der Rohe e todos os grandes mestres da Arquitetura conceberam obras que visavam afiançar a melhor salubridade em face das adversidades coexistentes como as decorrentes da saúde.

Atualmente, uma nova conjuntura de saúde desafia a Arquitetura, onde o medo na permanência em determinados tipos de espaços poderá condicionar o pensamento conceptual do arquiteto. Tal como a Tuberculose ou outras doenças, o Covid-19 veio efetivamente a transformar a nossa forma de viver dentro dos espaços construídos, afetando a nossa experiência coletiva de permanecer por longos períodos de tempo em confinamento dentro de casa, sendo esta agora apropriada como o elemento arquitetónico de maior segurança para a saúde, o que de imediato tende a influenciar um “novo” pensamento arquitetónico, por exemplo, imaginando como seria viver num determinado espaço por vários meses, alterando mesmo o tipo de vivência pois o espaço de habitação familiar pode transformar-se num espaço que para além da habitação tradicional, tem agora de estar apto a cumprir várias outras funções, como espaço de trabalho ou educação dos mais novos e ainda a necessidade de usufruir dos espaços exteriores em segurança, ainda que em confinamento.

Hannes Meyer, no seu ensaio de 1926, definia uma conceção arquitetónica como uma representação do ideal de domesticidade, aceitando as exigências ocupacionais da contemporaneidade e as ansiedades de vivência dos espaços do momento, afirmando a arquitetura como “uma máquina viva”, funcional e eficiente. Esta ideia, trazida aos dias de hoje, contraria uma determinada lógica conceptual de minimalismo que se veio a estabelecer desde o início do séc.XX, obviamente agora, muito mais exigente do ponto de vista programático.

Penso que a Arquitetura irá evoluir na busca de solucionar esse novo paradigma programático da habitação e do usufruto dos espaços públicos, provavelmente revisitando o “sonho” da Bauhaus de alcançar o espaço universalmente perfeito para todas as pessoas, mas agora numa lógica mais individualista ou familiar ao contrário da lógica globalista em que todos eram de lugar nenhum e simultaneamente de todo o lugar.

A arquitetura pós-pandêmica exigirá uma mudança que se manifestará no pensamento conceptual do arquiteto, que acredito poderá afastar-se dessa ortodoxia modernista em direção a uma sustentabilidade mais globalizante no contexto da individualidade. Deve aceitar a conetividade global que hoje é exigida ao Homem mas também deve participar, tal como no passado, de instrumento no combate aos desafios contemporâneos e neste o da saúde pública.

A Arquitetura será sempre um instrumento atuante na construção e modo de vida de uma sociedade e na sua apropriação, acredito que a arquitetura participará na dimensão comportamental da pessoa, sendo que essa ideia deverá estar presente na resposta arquitetónica contemporânea e no centro do pensamento arquitetónico

Gabinete:

OFICINA DE PROJETOS DE ARQUITETURA UNUM

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