“A narrativa do paradoxo”

Revista Anteprojectos - Maio 2019 - pg122

Longe vai o tempo do anonimato, da invulgar existência das “coisas”, nobre e vulgar modo de estar, ser ou
simplesmente existir, ou ainda a natural vontade de passar despercebido. E se isto se aplica aos seres, também as “coisas” ousaram pela “mão” dos mesmos, demonstrar vontades, desejos e indubitavelmente sem preconceitos, marcar o território numa clara manifestação de interesses, classes, sectores, lançando a confusão na hierarquia dos símbolos.

Vinte e cinto anos se passaram e muito mudou na Arquitetura, na estrutura da cidade e nos modos de vida, mas a suposta evolução e crescentes meios de informação apenas plastificaram a função do Arquiteto que se vê asfixiado entre as crises do sector, a desregulação do mercado e o crescimento de uma nova espécie, a figura do não Arquiteto.

O não Arquiteto não existe, é omnipresente nas plataformas, é gratuito e promove a banalização do conhecimento, da cultura e vem complicar ainda mais o exercício de uma profissão cada vez mais exigente.

A evolução tecnológica, a emancipação da sociedade e o acesso à informação acabaram com velhas guerras inconsequentes. Já ninguém discute o telhado ou a cobertura plana, mas numa exponencial assimetria, o desejo quase faraónico de marcar o lugar com acesso limitado ao star system, e por outro lado uma luta pelo simples direito ao exercício da profissão definem, hoje em dia, não um avanço, mas sim um retrocesso. E é precisamente este fenómeno que comprova a narrativa do paradoxo.

Desta forma o animal arquitetónico vê-se em vias de extinção, despido de defesas, instrumentalizado pela cadeia alimentar, restando-lhe, pois, existir em cativeiro.

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