“…um dia viveremos uma realidade virtual cujos cenários serão, naturalmente, feitos por arquitectos”

Revista Anteprojectos - Janeiro 2018 - nº 282 - pag. 46

Alexandre Burmester
Arquitecto

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Estamos a conversa com o Arquitecto Alexandre Burmester, Portuense de gema, tendo vivido no Brasil na década de 70, onde se formou em Arquitectura e começou a exercer a profissão dos seus sonhos. Desde 1982 que vive e trabalha na cidade do Porto onde hoje tem o atelier A. Burmester Arquitectos Associados. Já foi premiado nacional e internacionalmente.

Estudou e trabalhou em arquitectura no Brasil e mais tarde é que regressou a Portugal. Existem grandes diferenças em fazer arquitectura entre estas duas realidades? Houve dificuldade em adaptar-se ou foi fácil?
Existem mais diferenças do que as que conseguiria colocar no espaço desta entrevista, por isso limito-me a dizer que existem muitas. A maior dificuldade de adaptação não foi pela arquitectura em si, mas essencialmente pelas diferenças do mercado de trabalho.

Em que momento da sua vida é que despertou o gosto pela arquitectura, ainda no Porto, onde nasceu e passou a sua adolescência, ou quando já está no Brasil?
O meu interesse pela Arquitectura começou desde muito pequeno e foi despertado pelo acompanhamento de obras que nasciam à volta da minha casa. Mas não poderia ter sido pedreiro, trolha, carpinteiro ou serralheiro, porque o que me fascinou não foi o acto de construir em si, mas o de conceber.

Como está neste momento o intercâmbio na prática da arquitectura entre Portugal e Brasil, após o acordo que permite trabalharem nos dois países?
Confesso que não conheço qualquer intercâmbio entre os dois Países que me permita fazer Arquitectura no Brasil, e, mesmo tendo tirado lá o curso e ter estado inscrito na Ordem Brasileira, a burocracia que me permitiria exercer é de tal ordem, que quando precisei tornou-se mais fácil recorrer a um arquitecto local. Deste intercâmbio o que noto é o constante pedido de trabalho por parte de arquitectos brasileiros que tentam sair dum país conturbado a atravessar um momento difícil.

A sua cidade, Património Cultural da Humanidade desde 1996, está nos últimos anos praticamente em reconstrução, impulsionado sobretudo pelo turismo. Do que tem observado, considera que se manterá a autenticidade, a preservação do edificado?
As cidades têm que ter uma constante evolução, por isso não estranho nem me inquieta mais do que o normal assistir à transformação de Porto e Lisboa, principalmente ao reboque do turismo e dos consequentes hotéis e alojamentos locais. Outros motivos além do turismo contribuem para a alteração do edificado, como o aumento de residentes estrangeiros, por exemplo. Antes isso do que a desertificação que existia fruto de má legislação e/ou mau urbanismo. É pena que neste momento já haja quem pretenda legislar de novo ao contrário, seja por receios infundados ou má memória. Todas estas mudanças são boas e proporcionam a existência e a vivência daquilo que são por definição as cidades: plurais e diversas, o que acaba por ser a verdadeira autenticidade. Nada disto impede, do ponto de vista urbanístico, que se tenha de respeitar a cidade e adequá-la às regras necessárias para um melhor funcionamento e uma melhor qualidade de vida. Infelizmente, em Portugal, o urbanismo encontra-se entregue a políticos, doutores de leis e engenheiros, estes sim os verdadeiros responsáveis pelo estrago de muita coisa.

Qual a sua opinião sobre os engenheiros civis poderem assinar projectos de arquitectura? Acha que mudará o modo de fazer arquitectura e construir em Portugal?
Chama-se a isto andar para trás. Durante anos os arquitectos reclamaram o óbvio direito de serem os únicos profissionais a exercer, uma vez que qualquer outro técnico ligado à construção também o fazia. O resultado desta prática está à vista na qualidade de muitas cidades, vilas e povoações. Agora uma “chico-espertice” qualquer volta a colocar engenheiros a assinar, mas só para alguns privilegiados. Tendo por argumento os famosos “direitos adquiridos” esquece-se a responsabilidade das asneiras e os direitos pelo
ambiente que é de todos. É triste ver o papel que os partidos com assento parlamentar tiveram neste processo, seja por falta de memória e/ou ignorância, e é igualmente triste ver o papel da ordem dos engenheiros no processo. Quanto à questão prática em si, pouco ou nada se altera. A arquitectura passou a ter um relevo maior na sociedade e no mercado, por isso acredito que mesmo um cliente pouco esclarecido não entregará um projecto de arquitectura a um engenheiro. O mercado destes engenheiros será o de resolver pequenos projectos.

Onde se faz a melhor arquitectura, mais responsável e sustentável? E qual arquitectura que mais admira?
Faz-se boa arquitectura em qualquer lado do Mundo, e, se calhar, a melhor é a menos visível. A arquitectura de maior visibilidade que aparece nas revistas e publicações com melhor marketing, não é obrigatoriamente a melhor. Admiro a arquitectura que sabe num determinado tempo e local corresponder e resolver as necessidades de quem se destina e que tem no seu “cliente” a sua satisfação. Tudo o resto nem é responsável nem sustentável.

Revista Anteprojectos - Janeiro 2018 - nº 282 - pag. 48Acompanha as novas gerações o que têm feito? Qual é a sua visão actualmente em relação ao estado da arquitectura em Portugal?
Sem estar muito focado no assunto, vou acompanhando e vejo muita gente nova a fazer bons projectos. Noto é que as novas gerações são muito imagéticas e preocupadas com formas e modas, descurando alguns aspectos conceptuais do projecto. Isto não é uma critica é uma constatação comum a todas as áreas da sociedade, não só à arquitectura.

Qual o maior desafio da profissão?
Referenciando o que disse anteriormente, saber “ (…) num determinado tempo e local corresponder e resolver as necessidades de quem se destina (…) ” com tudo o que isto implica, nomeadamente interpretar, ter conhecimento e procurar constantemente actualizá-lo, aplicando aquilo a que por vezes se dá menos importância, a sabedoria.

Tem preferência em trabalhar particularmente um estilo arquitectónico ou trabalha com vários?
Não sei bem o que isto de estilo arquitectónico quer dizer. Já houveram alturas marcadas por determinado estilo arquitectónico, mas também existem géneros e arquitectos que se copiam. Não tenho a vaidade de achar que possa fazer qualquer estilo ou género num mundo tão ecléctico, assim como não tenho a pretensão de me achar original. Observo apenas que vou tendo uma certa caligrafia, mais pela repetição de determinados problemas do que propriamente por opção. Há três métodos para ter estilo: o primeiro por naturalidade; o segundo, por imitação; o terceiro, por experiência. Por vezes nenhum funciona.

Em que momento sabe que este processo concluiu? Ou considera que está sempre em transformação?
O processo nunca conclui propriamente. O projecto acaba porque tem pressupostos e data de entrega, mas normalmente continua ao sabor das alterações e adequações necessárias. Projecto, obra, projecto, obra, projecto, é uma transformação contínua. Projecto e obra que acabe é porque perdeu a utilidade, eu não faço objectos fechados, como a escultura.

Quanto pesa o pensamento próprio na realização de um projecto? Escuta os outros profissionais durante o processo, ou apenas escuta a sua própria voz interior?
A qualidade de um projecto de Arquitectura é directamente proporcional à qualidade de todos os intervenientes, a começar pelo próprio cliente. Cada vez existem mais intervenientes num projecto, seja por ser uma equipa maior de profissionais, pelas especialidades, pelas próprias entidades licenciadoras que também interferem ou pelas questões que o cliente tem na procura de respostas a uma realidade cada vez mais alterável. Não é possível estar enclausurado neste processo. A “voz interior” a que se refere, entendo-a como o momento específico em que se determina o conceito, o traço, a espinha dorsal de um projecto, esse é e sempre será um momento só ao qual me agarro no decurso do processo.

Afirma-se que vivemos em tempos de crise e que também tem afectado a arquitectura e a construção. Houve necessidade de diversificar no modo de exercer a arquitectura?
Desde que entrou a última crise passamos a usar a tabela Low cost e tivemos que optimizar os custos. Esta optimização passa tanto pelas formas de produção dos projectos, quer pelas relações contratuais entre colaboradores e inclusive com a forma de nos relacionarmos com os clientes com os quais assumimos, muitas vezes, riscos. Todos tivemos e temos, independentemente de crises ou outros acontecimentos, que estar num constante processo de adaptação. A Arquitectura adapta-se a este processo assim como à necessidade de se acomodar a cada um dos projectos e clientes.

Algum projecto o marcou de forma especial ao longo da sua carreira?
Muitos deles, quase todos, marcaram-me e continuam a marcar, cada qual da sua maneira. Não sei evidenciar nenhum.

O que é para si um espaço em arquitectura?
O espaço é a base do trabalho em Arquitectura. Não são apenas paredes, pilares, tectos ou pisos que compõem formas e que originam construção, mas sim aquilo que encerra, abre, marca e que, ao fazê-lo, cria espaços controlados que servem o propósito da obra. Entender o espaço envolvente onde se insere a obra, compreender o espaço que se cria e que servirá o propósito da obra e do cliente e saber produzir o ambiente apropriado é o cerne de fazer Arquitectura. A forma quase que vem por arrasto. A Arquitectura cria imagens que é aquilo que mais depressa e intuitivamente se apreende, contudo o que está por trás disso não é a forma pura e crua, mas sim o espaço que gera o ambiente e o que nos possa transmitir através da experiência e sensação de o viver.

A maquete deve aparecer no inicio do processo criativo ou no fim como modelo do projeto?
Por mim não precisaria sequer de aparecer. A maquete serve para me dar a entender o projecto a terceiros, mas raramente acrescenta algo no meu processo. Vai ao encontro do que disse anteriormente, transmite-me a ideia de um objecto pela escala à qual associo formas, mas não me dá a nítida percepção dos espaços. Há muito tempo que recorro a instrumentos de desenho disponíveis como o 3D e outros para fazer ensaios e experiências. Neste processo tem-se uma percepção melhor das envolventes e interiores, sendo um método mais rápido e objectivo.

Como vê a adopção da inovação tecnologia hoje num projecto? Considera a tecnologia importante para a sua vida profissional e o que é que isso implica?
A tecnologia é importante para a vida profissional e para tudo. Evoluiu e nós com ela. Falei anteriormente da execução de maquetes virtuais como um possível exemplo de algo que mudou a maneira de projectar. Existem muitas outras tecnologias que nos vão permitindo trabalhar de forma mais fácil e complexa ao mesmo tempo que nos ajudam a melhor comunicar e exprimir. No caso da Arquitectura existem campos ainda pouco explorados e que irão evoluir, conduzindo os arquitectos a outras formas de exercer a profissão, como a realidade virtual por exemplo. Vamos ao cinema e assistimos a cenários irrealistas que muitos filmes exibem, e, se juntarmos a previsibilidade de nos inserirmos nesses mesmos cenários através de sensores, fácil será de imaginar que um dia viveremos uma realidade virtual cujos cenários serão, naturalmente, feitos por arquitectos. Se calhar terão outro nome profissional.

Para alem da arquitectura, tem-se envolvido em outras áreas fora da cultura arquitectónica? Que outros assuntos actualmente lhe chamam a atenção?
Procuro sempre estar envolvido em áreas fora da cultura arquitectónica, por isso interesso-me por tudo, até por futebol. ■

Gabinete:

A. BURMESTER – ARQUITECTOS ASSOCIADOS, LDA

 

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